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DUAS PICADAS POR ANO E ADEUS AO VIH:”LENACAPAVIR CHEGA A MOÇAMBIQUE E JÁ HÁ QUEM O VEJA COMO “PASSE LIVRE” PARA SEXO SEM PRESERVATIVO



A nova injeção semestral contra o VIH mal chegou aos centros de saúde e já está a provocar um dos debates mais curiosos do ano em Moçambique. Nas redes sociais, nos transportes públicos, nos mercados e até em rodas de amigos, a pergunta repete-se em tom de brincadeira e preocupação: “Se a injeção protege do VIH, ainda preciso de preservativo?”

O protagonista da polémica chama-se lenacapavir, um medicamento injetável de ação prolongada administrado apenas duas vezes por ano e com eficácia superior a 99% na prevenção da infeção pelo VIH. O lançamento oficial ocorreu a 22 de abril de 2026, no Centro de Saúde de Ndlavela, na Matola, marcando uma nova etapa na luta contra uma epidemia que afeta cerca de 2,4 milhões de moçambicanos.

Mas aquilo que para o Ministério da Saúde representa um avanço científico histórico, para muitos cidadãos parece estar a ser interpretado como uma espécie de “carta branca” para relações sexuais sem proteção.

A reação popular foi imediata. Em vários grupos de WhatsApp começaram a circular mensagens sugerindo que a nova injeção “substitui o preservativo”. Outros foram mais longe e apelidaram o medicamento de “vacina da liberdade”. 

“O lenacapavir previne o VIH, mas não impede gravidez nem protege contra sífilis, gonorreia, clamídia ou hepatites”, alertam as autoridades sanitárias

Os números ajudam a explicar a aposta do Governo e dos parceiros internacionais. Em Moçambique, 12,5% da população adulta entre 15 e 49 anos vive com VIH. Entre as mulheres, a taxa sobe para 15%, enquanto nos homens ronda 9,5%. Todos os dias surgem cerca de 220 novas infeções, mesmo com mais de 2 milhões de pessoas em tratamento antirretroviral gratuito.

Perante este cenário, o lenacapavir entra como uma arma poderosa para reduzir novas infeções, sobretudo entre grupos mais vulneráveis.

Nesta primeira fase, o medicamento está disponível gratuitamente em 55 unidades sanitárias selecionadas e deverá beneficiar entre 34 mil e 40 mil pessoas elegíveis. As primeiras províncias priorizadas são Maputo e Zambézia, zonas com elevada carga da doença.

Curiosamente, Gaza, que lidera a prevalência nacional com 20,9%, ainda aguarda a expansão do programa, facto que já alimenta críticas e perguntas sobre os critérios de implementação.

O verdadeiro desafio pode não estar na eficácia do medicamento, mas na forma como a sociedade o interpreta. O MISAU, teme que a sensação de proteção leve alguns jovens a abandonar o preservativo, aumentando outras infeções sexualmente transmissíveis e gravidezes não planeadas.

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