Houve um silêncio estranho quando a selecção da República Democrática do Congo embarcou rumo ao Mundial. Faltava alguém que não marca golos, não faz assistências e nunca veste a camisola de jogo.
Faltava a estátua viva que aprendeu a transformar a imobilidade em paixão. Michel Kuka, conhecido por milhares de adeptos como "Lumumba vive", tornou-se um símbolo improvável. De mão erguida e olhar firme, permaneceu imóvel nas bancadas durante a CAN, como se desafiasse o tempo a passar por ele.
Desta vez, porém, foi o próprio tempo que lhe pregou uma partida. Entre papéis, vistos e exigências sanitárias, o adepto mais famoso do Congo ficou retido em Liège, enquanto os seus heróis seguiam viagem para os Estados Unidos.
Nem a intervenção das autoridades conseguiu acelerar os relógios da burocracia. O surto de Ébola e os prazos de quarentena ergueram uma barreira invisível, mais difícil de ultrapassar do que qualquer defesa adversária.
Entretanto, os rumores correm mais depressa do que os aviões. Uns garantem que estará nas bancadas frente a Portugal; outros asseguram que a espera ainda não terminou. No meio da incerteza, cresce a esperança de o ver juntar-se à festa antes do fim da fase de grupos.
Porque o futebol também vive destas histórias improváveis. E enquanto a bola rola nos relvados americanos, Michel Kuka continua a disputar o seu próprio jogo contra o tempo, na expectativa de que a próxima viagem o leve finalmente ao encontro da selecção que transformou numa causa e numa paixão.
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