
Há despedidas que nascem da maturidade. Outras, da exaustão emocional. E há aquelas que, apesar de nobres, chegam cedo demais. A de Reinildo Mandava, aos 32 anos, pertence claramente a este último grupo.
O comunicado de despedida, carregado de dignidade, emoção e sentido histórico, deixa claro que a decisão de Reinildo não nasce da falta de amor à pátria, mas exactamente do contrário: nasce do excesso de responsabilidade, do peso de ter dado tudo. Porém, é precisamente por isso que Moçambique não pode aceitar esta despedida como irreversível.
Reinildo não é apenas mais um internacional moçambicano. É, objectivamente, um dos melhores defesas africanos da actualidade, titular e referência competitiva ao mais alto nível do futebol mundial, actuando na Premier League, o campeonato mais exigente do planeta. Jogadores assim não se substituem — formam-se com tempo, com exemplo, com liderança em campo e no balneário.
Aos 32 anos, Reinildo não está no fim: está no auge da inteligência táctica, da maturidade emocional e da leitura de jogo. É hoje um jogador mais completo do que aquele que encantou Moçambique, África, Europa e o Mundo há alguns anos. Moçambique não perde apenas um atleta; perde um guia, um estabilizador, um motivador, um animador, um símbolo de profissionalismo para toda uma nova geração que ainda precisa de referências vivas, não apenas de memórias.
A história do futebol mundial está repleta de exemplos de grandes homens que disseram “basta”… e depois ouviram o chamamento do povo e regressaram ainda maiores:
Zinedine Zidane despediu-se da selecção francesa em 2004. Dois anos depois, regressou para liderar a França até à final do Mundial de 2006, sendo o melhor jogador do torneio.
Zlatan Ibrahimović anunciou o fim da carreira internacional pela Suécia. Voltou cinco anos depois, não por vaidade, mas por sentir que o país ainda precisava dele.
Roger Miller, o maior símbolo do futebol africano, regressou aos Camarões já depois de pendurar as botas e acabou por fazer história no Mundial de 1990, tornando-se eterno.
Até Leonel Messi chegou a tomar esta difícil decisão, mas reconheceu o peso do apelo do povo e do estado e vejam o que aconteceu, conquistou duas Copas da América e uma Copa do Mundo.
Nenhum deles voltou por ego. Voltaram porque a nação chamou.
Reinildo, Moçambique chama por ti.
O comunicado da FMF reconhece o teu peso simbólico. O seleccionador nacional confessou que fez de tudo para que esta decisão não acontecesse. A Federação apelou à reconsideração. FALTA AGORA QUE ESTE APELO GANHE A DIMENSÃO QUE MERECE: A DIMENSÃO DO ESTADO E DO POVO.
Por isso, é legítimo — e até necessário — que o Presidente Daniel Chapo , como primeiro representante da unidade nacional, intervenha simbolicamente. Não para pressionar, mas para honrar, dialogar e reconhecer que há momentos em que o desporto transcende o futebol e se torna património nacional.
Reinildo Mandava não é apenas um jogador. É um activo estratégico do imaginário moçambicano, um espelho onde milhares de jovens se veem e acreditam que é possível sair dos bairros de qualquer ponto deste Moçambique para os maiores palcos do mundo.
Recuar não é fraqueza. Recuar, neste caso, é grandeza.
Que esta despedida seja, como tantas outras na história, apenas um ponto e vírgula.
Porque Moçambique ainda precisa do teu pé esquerdo, da tua motivação no balneário, da tua liderança sem discursos longos — e, acima de tudo, do teu exemplo.
Vamos juntos como povo moçambicano abraçar esta corrente de pedido para que o nosso Reinildo reconsidere a decisão e continue a vestir as cores da nação.
Fonte:
Francisco Machamba
(Canal FM Desporto)